MAWU-LISA
Para
falarmos em Mawu-Lisa (mauú-lissa) temos que falar na religião Fon e
vice-versa.
Os Fons reconhecem a existência de um
único Deus supremo e criador de todas as coisas a quem eles chamam de
Mawu. Segundo suas crenças, Mawu
enviou os Voduns à terra para auxilia-lo a governar o mundo e dar assistência
aos seres humanos.
Embora muitos pesquisadores (padres,
antropólogos, sociólogos, etc.) venham usando a terminologia “deus” para
definir os Voduns e outras divindades africanas, o africano de um modo geral e
em especial o povo Fon consideram essas como divindades secundárias e algumas
como ancestres.
Podemos observar que existem algumas
divergências nos relatos dos pesquisadores sobre Mawu-Lisa, mas todos
concordam que esse Deus faz parte do cotidiano dos Fons.
Para quem visita o Benin é natural
ouvir a todo momento o nome de Mawu:
-
Mawu we faz Vodum – “Mauu está
entre nós”.
-
Ku faz Mawu’zo – “Deus te
pague, obrigado”.
-
Mawu ni fon mi – “Durma com
Deus” “Durmo com Deus”
-
Mawu’fe we – “Deus nos
ama.
-
Mawu na biy – “Deus vai
ajudar”
Anthony B.
Parker, escreveu que em sua visita ao Benin observou que para o povo Fon basta
dizer que “Deus criou tudo” ou “Mawu criou tudo”, eles desconhecem todas essas
historias que escrevem sobre Mawu. Anthony descreve o seguinte trecho de uma
entrevista:
“Um
homem respondeu quando perguntei como Deus criou o mundo; - Eu só tenho 64
anos, você deve perguntar a alguém mais velho que
eu”.
Sobre essas afirmativas de
Anthony, discordo um pouco. A
cultura oral passada pelos kpanlingans que são os contadores oficiais das
historias desse povo, vem sendo escrita por profissionais respeitáveis que se
dedicam ao estudo da antropologia e sociologia da África. Até concordo que
alguns distorceram um pouco as historias narradas, mas encontramos trabalhos
sérios nessas áreas de pesquisas, principalmente as feitas pelos franceses que
foram os colonizadores do antigo Dahomey.
Provavelmente as pessoas
entrevistadas por Anthony não eram sacerdotes de Vodum ou kpanligans e por
essa razão recebeu essas respostas.
Na mitologia Fon, Nana Buruku
(bulucu) com a ajuda da serpente sagrada foi quem criou o mundo dando vida aos
animais, a flora e aos minerais.
Após criar o mundo, Nana teve um
casal de filhos gêmeos a quem batizou de Mawu-Lisa e deu a eles a incumbência
de criar o homem e povoar a Terra.
Com o nascimento desses filhos,
Nana criou a dualidade que daria o equilíbrio ao mundo e aos seres
viventes.
Mawu é o princípio feminino, a
fertilidade, a suavidade, a compreensão, a ponderação, a reconciliação e o
perdão.
Lisa é o princípio masculino, o
julgador, a impaciência, a força cósmica que castiga os homens errados e os
corrige, a seriedade. Ele está sempre atento para que as leis de Mawu sejam
cumpridas.
Nana vendo que Mawu não conseguia
mudar o gênio de Lisa e que esse não atendia Mawu quando essa tentava ponderar
antes que ele castigasse os homens, resolveu separa-los e deu a Mawu a
supremacia no governo da Terra.
Enviou Mawu à lua para ser a luz
que iluminaria a Terra no período noturno e suavizar os sofrimentos dos seres
e projetar o Fé (amor) sobre o planeta.
Enviou Lisa ao sol para que esse
pudesse ver com mais clareza os erros dos homens e julgasse bem antes de
castiga-los. Ordenou também que
Lisa uma vez por ano deveria andar na Terra para conviver com os homens e
conhecer de perto suas necessidades, ajudando-os e corrigindo-os. Com essas
andanças pela Terra, Lisa deixou aqui alguns descendentes que se tornaram
divinizados.
Os Fons dizem que a partir dessa
separação, Mawu e Lisa só se encontram quando ocorre um eclipse e nessa
ocasião Eles fazem amor, gerando mais Voduns para ajudar os
homens.
Antes que essa separação se
concretizasse, Mawu e Lisa chamaram seu filhos e os enviaram à Terra como os
primeiros habitantes e para que esses os ajudassem a governar a Terra, deram a
cada um uma atribuição.
Por essa razão, os Fons acreditam
que todos os homens são Voduns, sendo que só voltarão a sua condição de
divindades, após a morte física do corpo.
Vodum Zodje e Nyohye Ananu
(gêmeos) – riquezas – Teriam que controlar todas as riquezas da Terra e
distribui-la aos homens segundo seus merecimentos. Foram habitar no reino
abissal (fundo do mar)
Voduns Agbê e Naete (gêmeas) –
o amor, a água – Teriam que ensinar o amor aos homens e a todos os seres
viventes. Foram habitar nas águas.
Vodum Sakpata – doenças, a
terra – Teria que levar as pestes e doenças que corrigirião os homens que se
auto flagelavam e ao mesmo tempo trouxe consigo as fórmulas para a cura de
todas as doenças, deveria dá-las aos homens. Foi habitar as profundezas da
terra
Voduns Hevioso e Sobo – a
justiça, o fogo – Teriam que fazer com que as leis de Mawu fossem cumpridas
com justiça e cobrasse dos homens seus erros. Foram habitar nos
vulcões.
Vodum Gu – a guerra – Teria que
combater todos que usassem o poder para matar e explorar os mais fracos.
Deveria lutar ao lado dos guerreiros que estivessem dentro das leis de Mawu e
castigar os demais mesmo que para isso tivesse que
mata-los.
Vodum Djó – o ar, o vento, a
chuva – Teria que enviar a todos os seres o AR necessário à vida e enviar as
chuvas para fertilizar a Terra. Ficou habitando o espaço celeste próximo a
Mawu e Lisa. Encontramos alguns autores escrevendo a palavra dji como sendo o
correto nome desse Vodum e ao mesmo tempo o identificam como Dan Hwedo. A
tradução da palavra dji é chuva ou céu no sentindo de dizer chuva que vem do
céu.
Vodum Age – as florestas e
agricultura – Teria que saciar a fome dos homens e animais. Os pássaros e demais animais ficaram
sob sua responsabildade e o abate de um desses só deveria ser permitido para
aplacar a fome.
Vodum Loko – as árvores - Ficou responsável por todas as árvores
e seres que a habitavam. Deveria
frutificar algumas a fim de saciar a fome dos homens e animais e combater os
espíritos malignos que quisessem se apoderar delas ou
controla-los.
Vodum Legba – Por ser muito
arteiro e aprontar muitas brincadeiras perigosas e sem limites e também por
ser o preferido de Mawu, foi mantido perto dos pais. Recebeu a incumbência de ser o
mensageiro entre os irmãos e Mawu-Lisa. Recebeu o dom de saber todos os
idiomas e dialetos para que pudesse escutar tudo no céu e na terra e contasse
para seus pais.
Embora o povo
Fon cite somente o nome de Mawu como o Deus Criador, eles têm conhecimento da
existência de Lisa e o consideram o lado justiceiro de
Mawu.
Mawu e Lisa são conhecidos por uma
infinidade de nomes, de acordo com o dialeto falado podemos
encontrar:
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MAWU |
LISA |
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Segbo-Mawu |
Sebo-Lisa |
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Dada-Segbo |
Dada-Segbo-Lisa, etc. |
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Adimoula |
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Mawuto |
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Mawu
Todzi |
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Mahou,
etc. |
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Na África, existem três grandes
templos de Mawu-Lisa, todos fundados por Wanjele que era sacerdotisa de Lisa,
esposa do rei e mãe do futuro rei Tegbesu.
Certa ocasião Tegbesu ficou muito
doente, Wanjele consultou Fá e através desse, Lisa ordenou que ela erguesse um
templo para ele em Abomey e trouxesse seus assentamentos. Wanjele mandou buscar o filho doente e
foi para sua cidade natal (Adja) buscar seus
assentamentos.
Após instalar Lisa no novo templo
em Abomey, Tegbesu ficou curado.
Lisa é associado ao sagaman
(ságámâm -
camaleão) e ao topodun (tópôdum -
crocodilo)
Algum tempo depois Wanjele fundou
outros templos para Lisa, um em Ghana e outro em
Ouidah.
Vejamos agora alguns Voduns filhos
de Mawu-Lisa e outros somente de Lisa. São esses os Voduns cultuados ou feitos
nos iniciados. A pessoa feita de
Lisa é chamada inicialmente de agamavi e após seis meses de iniciação passa a
sere chamada de anagônu.
Mawu não é feito na cabeça de
ninguém e nem recebe oferendas como os demaisVoduns.
Lisa Agbaju (lissa
abâjû)
– filho de Lisa e Mawu, portador das mensagens dos pais. Veste
branco.
Lisa Akazum (lissa
akazum) – filho de Lisa, portador das mensagens do pai. Veste
branco.
Lisa Aizu (lissa-aizu)
- portador das mensagens de Mawu aos
homens. Veste branco
Lisa Molu (lissa
môlû)
– filho de Lisa e Mawu que procura as coisas perdidas. Veste
branco.
Lisa Wete (lissa
uêtê) – filho de
Lisa e Mawu, é um Tohousu coberto de espinhas (acnes). Não é feito na cabeça
de ninguém.
*Lisa Lumeji (lissa
lumeji) – filho de Lisa que vive abaixo da
terra. Veste branco e usa muito metal.
Lisa
Ganman (lissa gamam) –Filho de Mawu-Lisa. Vodum
velho veste-se de branco.
Lisa
Gwègwè (lissa
güêgüê) –
Filho de Lisa, tão genioso quanto o pai, jovem e guerreiro. Veste branco com
detalhes azuis
Adzakpa
(azapá) - Vodum masculino da linhagem de Lisa,
Vodum do crocodilo. anda lado a lado com ele tanto na terra como na água. Seus adeptos têm o corpo pintado com
pó branco sagrado e usam na cabeça, a imagem de um crocodilo esculpida em
madeira clara de árvore sagrada.
Veste-se de branco assim como, todos os participantes do
culto.
Akazun (acazum) – Uma das
filhas mais velhas de Mawu-Lisa.
Guardiã do armazém e do tesouro de sua mãe. Vodum
velha.
Ayzun (aízum)
- Outra filha de Mawu-Lisa . Junto com
sua irmã Akazun, é guardiã dos armazéns e tesouros de sua mãe. Vodum
velha.
Aláfia (alafia) - Vodum
masculino da linhagem de Lisa.
Seu templo é na cidade de Gnezedzekope. Aprecia muito o obi que é espetado em
sua espada, com a qual ele combate os feitiços de seus adeptos,
purificando-os. O cão é um animal
muito importante para esse Vodum.
E a “alma do cão” que transmite as mensagens de seus adeptos quando ultrapassam a outro mundo para
destruir as forças dos feitiços.
No ritual de iniciação de seus adeptos, um cachorro, após ser
sacrificado é enterrado no templo, em pé, para que seu espírito acompanhe o
iniciado, protegendo-o
Agoye (agôiê) - Vodum dos
conselhos. Seu templo é na cidade
de Ouidah, onde existe uma escultura ou assentamento desse Vodum, sentado em
cima de uma espécie de cálice confeccionado com barro vermelho. Entre o cálice
e a escultura existe um pano, também vermelho. Sua garganta é decorada com um colar
feito de pedras tingidas de escarlate e 4 cauris pendurados. Na cabeça, leva uma coroa de plumas
vermelhas que representa a primavera da vida, entremeada de oito lagartos
presos pelo rabo representando seu poder e sabedoria. No centro da coroa, no ponto
denominado “morra”, ergue-se uma haste de metal em forma de seta onde podemos
observar uma pequena lua crescente e um lagarto, ambos também de prata! À frente da imagem, existem três
pequenos potes, onde, acredito, que seus adeptos depositem presentes, como
moedas, em troca de bons conselhos. Não é feito na cabeça de
ninguém.
Ge (gê) - Filho de Mawu-Lisa, este Vodum é um
dos deuses da lua. Também
considerado a divindade dos camaleões.
Conta-se que foi Ge quem enviou estas criaturas como ajudante para os
seres humanos expandirem a crença nos Voduns. Veste branco. Pós as tentativas
de evangelizar os Fons com os dogmas do catolicismo, muitos Fons passaram a
associar Mawu-Lisa-Ge com a santíssima trindade.
Adjakpa (adjápá) – filha de Mawu e Lisa. É a responsável pela água potável
necessária aos seres humanos. Veste branco
Ayaba (ai
abá)
– filha de Mawu e
Lisa. É uma divindade do lar,
cuida dos alimentos dos seres humanos. É a filha mais jovem. Veste branco com
panos azuis listrados ou estampados.
Oulisa (oulissá) -
Vodum masculino que habita as águas claras e frias do oceano. Esse
Vodum é sempre muito confundido com Lisa (lissá). Veste branco com
detalhes prateado ou dourado. É um Guerreiro dos Mares. Panteão da
terra. Originário da
cidade de Porto Novo
Lakaya (lacaiá) - Vodum jovem da linhagem de Lisa,
veste branco.
Wele – Vodum masculino, velho.
Detém as chaves dos tesouros e depósitos de Lisa. Veste branco com detalhes
coloridos.
Alawe – Vodum masculino, velho.
Junto com seu irmão Wele guarda as chaves dos tesouros e depósitos de
Lisa.
* ”Uma historia sobre Vodum
Lisa Lumeji:
Conta à tradição oral que certa
ocasião quando o réu de Dahomey tinha que pagar tributos ao rei de Oyo como
também enviar um de seus filhos para trabalhar durante um ano em Oyo; sua
esposa Wanjele pegou um obi, mandou que todos se afastassem e jogou o obi no
chão invocando Lissa Lumeji, nesse momento o chão se abriu e Lumeji surgiu das
profundezas da terra.
Wangele pediu a Lumeji que
decidisse qual dos filhos do rei deveria ser enviado a Oyo. O Vodum ordenou que Tegbesu (filho de
Wanjele) fosse enviado.
Tegbesu se revoltou e disse que
a mãe tinha invocado um mau Vodum.
Wangele chamou a atenção do filho e disse-lhe que confiasse no
Vodum.
Antes da partida de Tegbesu
para Oyo, por ordem de Lumeji, Wanjele deu a seu filho um tebe (têbê – pequeno
pote) contendo água e mandou que Tegbesu encostasse apenas a boca na borda do
pote para saciar sua sede e que essa água duraria três anos. Wangele deu
também um alforge cheio de obi e disse ao filho que bastaria ele comer um
pequeno pedaço para não sentir fome.
Tegbesu foi para Oyo levando
consigo os presentes de Lumeji.
O príncipe foi colocado na
lavoura e quando tinha que capinar, ele tirava os inhames e deixava as ervas
daninhas.
O povo de Oyo se espantou ao
ver que Tegbesu não sentia fome nem sede e que em momentos de fúria ele
esfregava as mãos conversando com Lisa Lumeji, como conseqüência vinha à seca.
Temerosos com o gênio e poderes
mágicos de Tegbesu resolveram envia-lo de volta a Dahomey.”
No Brasil algumas pessoas dizem
que Mawu é o “Oxalá velho – Oxalufan” e que Lisa é o “Oxalá novo – Oxalaguian”
. Essas afirmativas são errôneas. Primeiro porque Mawu é uma Vodum mulher e
Oxalufan é um Orixá homem, Lisa é um Vodum e Oxalaguian é um
Orixá.
Se quisermos fazer uma semelhança
entre essas divindades, teremos que dizer que todos os Oxalás feitos no Jeje
são Lisa.
Como já é do conhecimento de todos
aqueles que estudam as culturas africanas, a nação Jeje cultua como divindades
principais, os VODUNS, porém os ORIXÁS são recebidos também em nossos templos
com todas as honras.
Quando um Oxalufan ou Oxalaguian é
feito em um iniciado, essa divindade é tratada como Orixá e não como um Vodum,
embora ela se enquadre nos ritos da nação.
Muitos dizem que no Brasil não “se
vê” Lisa feito, mas se cada
zelador passar a observar melhor seus iniciados constatará que muitos dos
“Orixás” feitos em suas casas na verdade são Voduns e com certeza encontrão,
quem sabe, um Lisa feito em seu kwe.
As festas ou festival de Mawu-Lisa
no Brasil acontecem entre os meses de dezembro e janeiro. Esse ritual nada tem
a ver com “As águas de Oxalá” feita pelos yorubanos. Nesse período os kwes estão usando a
cor branca, o uso de dendê é proibido, as pessoas feitas de Oxalá ou Lisa
permanecem no kwe. Muitos inhames
são oferecidos às divindades e as pessoas. Os demais Voduns e Orixás participam
das festividades e prestam homenagem aos “deuses” que criaram os seres humanos
e os Voduns.
Nana Buruku é muitíssimo lembrada
e homenageada durante essa festa que dura em torno de 15 a 20
dias.
Quando Oxalá e Lisa aparecem todos
gritam:
Mawu ga Sogbolisa, kiti kata adonu
wo to amesi wo asi wo afo (mauu gá,
sôbôlissa, quiti cata adônú uôtô, amêssi uô assi uô afô) = Mawu-Lisa! Salve os
criadores do Mundo, venham receber nossas oferendas, nos abençoe, somos seus
filhos
Mawu’fe
hud’ali. (Mauu cudô
ali) = Mau nos ame, nos dê
bons caminhos.
Mawu-Lisa e
na Che nu we!
(mauu-lissa ê na tchê ne
uê)
Que Mawu-Lisa nos
abençoe!